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Da luta contra a pobreza ao desafio de criar uma nova Europa

Na “Análise Anual sobre Integração e Protecção Social”, a UE avisa que a pobreza vai aumentar na Europa.  O desemprego tende a crescer e o desemprego de longa duração a eternizar-se. Apesar de com realidades diferentes quanto à protecção social, os jovens, os idosos e as mulheres são, em todos os países da UE, as principais vítimas deste crescimento.  Recomenda que se quebre a espiral da pobreza intergeracional, hereditária, agravada pelo abandono escolar (esclarecedor que o relatório não aborde, nem que pela rama, o papel da precariedade laboral no aumento da pobreza) e lembra a necessidade de lutar pela inclusão de outros grupos de risco – imigrantes, deficientes.

Os responsáveis do Relatório encontram as vítimas, responsabilizam a crise… só não apontam as soluções, as causas estruturantes ou quem e o que a provocou. A Europa Comunitária, a Europa expoente do neoliberalismo, enterrou, pois, o Estado Social, em que se alicerçavam as democracias ocidentais. Hipocritamente, recomenda que se tenham em atenção as pensões de reforma, dado o envelhecimento da população… como se a necessidade de acautelar o sistema de pensões se pudesse desligar do crescente e imparável aumento de homens e mulheres em situação de desemprego que, para sobreviver, gastam, são obrigados a gastar, hoje, durante a sua vida activa, o que lhes deveria servir de sustento após o seu termo. Como se o crescente aumento de homens e mulheres desempregados, cada vez mais jovens e de cada vez mais longa duração, tornasse viável, mesmo sem crescimento demográfico ou envelhecimento da população, qualquer sistema de segurança social a médio ou a longo prazo.

O estudo refere, no que concerne a Portugal, que o risco de pobreza é dos mais elevados da Europa (Portugal 18% - UE 16%), sendo que nos grupos de risco as diferenças são ainda mais elevadas (21% -19%, nas crianças; 26% - 19%  nos idosos). O relatório afirma como significativo o número de pobres que trabalham (11% contra 8%), o que atesta a opção pelos baixos salários e a perda constante do poder de compra dos portugueses.

E destes números salta uma conclusão: apesar da falência do Estado Social na Europa, da crise económica generalizada, do desemprego geral e da precariedade instituída, ser pobre, ser desempregado, ser reformado, ser precário, não é a mesma coisa em Portugal e em muitos outros países da União Europeia.

À falência do neoliberalismo, Portugal juntou um eterno Bloco Central que desperdiçou fundos e  condicionou o passado ao controlo do défice, inferniza o presente, incapaz de qualquer estratégia coerente de combate à crise financeira, económica e social e retira o direito ao futuro. E uma classe de empresários pacóvios, sem formação nem rasgo, corruptos, dependentes de subsídios pagos por todos e de ajudas eternas para alimentar gestões ruinosas.

Sem nunca ter vencido a batalha da formação profissional, sem nunca ter optado por um mercado de arrendamento que não colocasse hoje grande parte dos portugueses na mão das taxas de juro do BCE, enterrando um Serviço Nacional de Saúde dos mais democráticos e justos da Europa, aumentando a idade da reforma como se disso dependesse a sustentabilidade da Segurança Social, o futuro de Portugal cruza-se com o da Europa, no aumento da pobreza, da exclusão social e da miséria, mas vai na dianteira do pelotão.

A Europa tem hoje mais pobres, mais desempregados e mais excluídos Mas, em Lisboa, os pobres são hoje e serão amanhã mais pobres que em Estocolmo.

Pela primeira vez desde a 2ª Grande Guerra, a geração dos nossos filhos viverá pior que a dos seus pais. Os nossos pais viveram melhor que os nossos avós, nós vivemos melhor que os nossos pais. A geração dos nossos filhos retrocede no caminho do progresso e terá menos oportunidades e menos qualidade de vida que as que os seus pais tiveram.

Numa recente reportagem televisiva, a imagem de um homem, na casa dos 30/40 anos, com 30 anos de vida activa à sua frente, sentado num sofá de uma casa ainda igual à nossa, que comprou recorrendo ao crédito, como todos nós, que deixou de pagar há três meses e se arrisca a perder, como acontecerá a muitos de nós, com os sacos dos mantimentos que recolhe numa instituição de assistência social em cima da mesa da cozinha, futuro próximo de outros tantos de nós, sem nada para fazer dos seus dias, depois de perder o direito ao subsídio de desemprego cujas normas as opções políticas de Sócrates se recusaram a alterar e a adaptar à grave crise social que vivem os portugueses e depois de bater a todas as portas e ser considerado velho para qualquer lugar das poucas oportunidades que surgem, é a imagem da falência do modelo económico e social da Europa neoliberal.

Para combater a inevitabilidade das sopas dos pobres cada vez com mais pobres e de cada desempregado ou precário de hoje se tornar um pobre de amanhã, a Esquerda tem de lutar por medidas urgentes para combater a exclusão social e a pobreza, combatendo as suas causas: impedir os despedimentos preventivos, punir exemplarmente aqueles que se deslocam de país em país à procura de mais lucro e de trabalho mais barato e com menos direitos, impedir que se usem dinheiros públicos para a nacionalização dos prejuízos de bancos e banqueiros, acabar com os paraísos fiscais.

Para contrariar e vencer a tragédia social que a crise do neo-liberalismo fez abater sobre os povos da Eupropa à Esquerda cabe exigir políticas que apostem na criação de emprego e no fim da espiral precariedade – desemprego –pobreza, na qualificação profissional e no trabalho com direitos
A oportunidade é a de construir uma nova Europa. A oportunidade é a de criar uma Europa solidária e de justiça social e enterrar a Europa especuladora, corrupta e injusta. As tentativas de reformar o capitalismo, consubstanciadas na social-democracia, falharam. O capitalismo de estado das burocracias pseudo-socialistas falhou. Não há, pois, alternativa ao socialismo. Nas lutas sociais ou nos combates eleitorais, na Europa ou em Portugal, tem que ser esse o compromisso da Esquerda. Se enterrarmos a esperança e esmorecermos na luta de criar uma nova sociedade, mataremos o futuro.

A Autora é membro da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda  e candidata às Europeias 2009

Texto publicado na edição especial dedicada às Europeias de 2009 do "Objectivo Socialismo"

 

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Criado em: 2009-06-06 19:17:42
Autor: Isabel Faria