Há quem defenda que o Maio 68 começou em Fevereiro. Porquê? Três meses antes, a 14 de Fevereiro, milhares de pessoas dirigiram-se ao Palácio de Chaillot – sede da Cinématheque Française – para protestar contra a demissão do seu director, Henri Langlois. Nessa multidão encontravam-se, entre outros, Jean luc Godard, François Truffaut, Catherine Deneuve e Jeanne Moreau. A manifestação foi reprimida pela Polícia. O autor desta demissão, por alegadas deficiências financeiras – argumento velhíssimo, como se vê –, foi o então ministro da Cultura André Malraux, esse mesmo.
“Mas quem é esse Henri Langlois?”, perguntou De Gaulle ao seu ministro, após todo este rebuliço.
Henri Langlois era o director da cinemateca francesa desde o seu início, a 9 de Setembro de 1936. É esta cinemateca que vai ser a “mãe” de todas as cinematecas do Mundo. O seu fim era “conservar e difundir os filmes de reportório”. A associação de Langlois era originária de um “Groupement des intérets français en Espagne”, cujo fim era “recensear os interesses franceses em Espanha, assim como a sua protecção e eventual salvaguarda”. Os acontecimentos em Espanha, a guerra civil para ser mais correcto, só fizeram nascer vocações revolucionárias.
A cinemateca não surgiu de uma colecção previamente constituída, mesmo privada, mas de um cineclube. Langlois era igualmente um coleccionador de tudo o que dizia respeito ao cinema.
Provavelmente era o primeiro e o maior coleccionador de todos os directores de cinematecas ou de arquivos de filmes. E o que distinguiu durante muitos anos a cinemateca francesa das outras foi a estreita dependência entre uma colecção e a sua programação.
Para Langlois, todo o documento, todo o filme conservado, deve ser mostrado. Mostrar um documento e projectar um filme foram para Langlois actos públicos.
É a criação da cinemateca que decreta por um golpe jurídico – uma declaração de associação e a sua publicação no Journal Officiel, de 8 de Junho de 1936 – que os filmes são obras de arte, de “reportório”, e que o cinema é uma coisa preciosa que se deve conservar.
Foi a favor deste homem que se insurgiu toda aquela gente, naquele final de tarde chuvoso. Os protestos tiveram o apoio do jornal Combat, como não podia deixar de ser, da revista Cahiers du Cinéma, que receberam apoios de diversas personalidades ligadas ao cinema, além dos anteriormente nomeados: Abel Gance, Alain Resnais, Joseph Losey, Roberto Rosselini, Nicholas Ray, Erich von Stroheim, Charles Chaplin, Luchino Visconti, etc., etc..
Os protestos continuaram durante meses... o Festival de Cannes foi suspenso... há algumas fotografias célebres de Truffaut a trepar pelas cortinas.
Ah!... Langlois foi reintegrado.








