Não vou falar de Maio de 68 com grandes análises sociopolíticas embora as considere interessantes e necessárias numas comemorações de 40 anos de um acontecimento tão marcante. Vou reflectir em termos pessoais, num testemunho vivencial, subjectivo.
Cheguei a Paris nos finais de 1967 e não me podia ter acontecido melhor forma de integração neste país. Em Março os estudantes ocupam a Universidade de Nanterre e cria-se o Movimento de 22 de Março liderado por Daniel Cohn-Bendit.
As primeiras reivindicações eram contra o ensino universitário, contra “a educação burguesa” e os enlatados de conteúdos disciplinares – “Professores, a cultura está em migalhas” –, contra o autoritarismo, a tecnocracia, a burocracia, a repressão sexual. A primeira contestação activa tinha ocorrido meses antes, contra a separação de sexos nas residências universitárias.
Nos primeiros dias de Maio o Governo manda fechar as Universidades de Nanterre e de seguida a Sorbonne.
As manifestações enchem em permanência o Quartier Latin. A repressão policial sobre os manifestantes causou prisões e muitas dezenas de feridos. Uma barricada construída deu azo a muitas outras, os paralelepípedos arrancados mudaram os confrontos e as relações de força. Todos os dias se evoluía.... Também a polícia se aperfeiçoava: passaram da protecção com escudos em metal para um material resistente mas transparente que permitia ver melhor deonde vinham os paralelepípedos.
A 13 de Maio uma manifestação juntava, só em Paris, cerca de um milhão de estudantes, professores, trabalhadores. “A nossa Revolução é maior que nós”.
Paris fervilhava e encantava… Um outro viver, a cidade construía-se com novos espaços de convivialidade. “As paredes têm ouvidos, os teus ouvidos têm paredes”; “Um só fim de semana não-re-volucionário é infinitamente mais sangrento que um mês de revolução permanente”. Contra as teias de aranha, o marasmo da vidinha burguesa - “A imaginação ao poder” - procura novas concepções de vida - “O aborrecimento é contra-revolucionário”; “Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo”.
Falar da Sorbonne ocupada no dia 13 com uma bandeira vermelha e outra preta desfraldadas no seu topo é contar como a aventura se descobria no dia a dia e como a experiência de luta e de autogestão ganhava forma. Organizar os comités de ocupação, o comité de imprensa, a creche, as limpezas, as dormidas, o posto médico que contava com estudantes de Medicina, um bar onde se pagava o que se podia, um pátio onde se cantava, se tocava, se teatralizava, se descobriam expressões artísticas alternativas, era como se o mundo nos desse todas as possibilidades.
O que para nós significava esta Sorbonne ocupada estava bem patente na frase que um dia surgiu à entrada com grandes letras escrita: “Já passaram 10 dias de felicidade”.
É impossível esquecer o que eram anfiteatros onde os debates se sucediam dia e noite, onde o megafone circulava pelas mãos que o desejassem e debater ideias e estratégias dava tanto prazer. “On n’est pas lá pour s’emmerder”. E se no grande anfiteatro tinham lugar as Assembleias Gerais e se encontravam personagens de topo, nos pequenos debatiam-se temáticas como o feminismo, aborto, ecologia e migração, entre muitos.
Pessoalmente, tive uma ocupação facilitada dormindo no simpático espaço do Departamento dos Estudos Portugueses e Brasileiros.
Tecia-se socialmente uma rede de lutas que se estendia com nós espalhados por todo o país, com malhas fortes e malhas fracas, com buracos, com enriçados, com originais feitios. Uma rede cujos limites eram sempre provisórios, pois novas malhas podiam ser tecidas. Estávamos cons-cientes que eram os buracos da rede que permitiam a emergência de novas criatividades, potencialidades, problemáticas.
Todos os dias novas injustiças eram denunciadas, novas temáticas exploradas, sem verdades absolutas, numa complexa dinâmica onde tudo tinha que ser permitido e aceite pois “É proibido proibir”. Novos grupos (“groupuscules”) tomavam corpo. “Sejam realistas, exijam o impossível!”
Se o que se estava a passar em Paris se inscrevia em movimentos reivindicativos mundiais, por sua vez, o que aqui se passava dava sinergia a novas transversalidades, exigindo-nos uma compreensão holística das dinâmicas interactivas.
A greve geral agarra a França e abrange 10 milhões de trabalhadores e muitas fábricas e empresas ocupadas.
O poder estava na rua e tinha abalado o Governo. De Gaulle estava “refugiado” na Alemanha e, verdade ou não, dizia-se que muitos documentos estavam a ser queimados com medo da Revolução.
Surpreendi-me ao perceber como as ocupações nas fábricas se faziam frequentemente contra os sindicatos - “Trabalhador: tu tens 25 anos, mas o teu sindicato é do outro século”; surpreendi-me ao ver o jornal L’Humanité (orgão do Partido Comunista Francês) tratar os estudantes de “provocadores”, “aventureiros”, “agitadores”; surpreendi-me no dia 13 de Maio, o dia da grande manifestação, por ser dito que “a única lite-ratura permitida será a das organizações responsáveis pela manifestação”, tentando controlar o incontrolável; surpreendi-me...
Há acontecimentos sociais e políticos que não encontraram palavras e discursos que lhe dessem corpo mas, em Maio de 68, uma criatividade em espiral entrosava os acontecimentos e as frases. Maio de 68 está bem representado nas suas frases emblemáticas. A ousadia das ideias consubstanciava-se numa narrativa e grafismo nas pichagens murais, nos cartazes, nas faixas suspensas nos prédios e nas árvores.
Toda a gente podia escrever, re-escrever ou comentar o escrito. “Todo poder aos conselhos operários” (um enraivecido); “Todo poder aos conselhos enraivecidos” (um operário).
Fartos de slogans estafados como “A imaginação ao poder”, um discurso espontâneo, libertário, irreverente, provocador, subvertia o estabelecido ao “inventar a utopia” com algumas frases extraordinariamente belas. A narrativa criava realidades.
Como pequena nota de como tudo era possível, um dia fiquei espantada quando vi na Faculdade de Censier escrito: “Milice ando à tua procura em Paris e ainda não te encontrei. Teresa”.
Todavia, as forças conservadoras também se manifestaram sob bandeiras tricolores. Em Junho as eleições traziam a vitória da UDR. Mas nada foi como dantes.
Em 1968-69 inscrevo-me na recém-formada Université de Vincennes (Paris VIII) no curso de Psicologia, tendo tido marcantes professores como Tomkiewicz, Michel Lobrot, Georges Lapassade, Ardoino, e tendo podido escutar Foucault, Lacan, Derrida.
Como activista estive, sobretudo, li-gada a grupos de crítica às instituições e à violência institucional. Lutei em movimentos antipsiquiátricos, nomeadamente no Groupe Information Asile e, posteriormente, no Réseau Alternative à la Psyquiatrie (David Cooper, Franco e Franca Basaglia, Robert Castel, Mony Elkaim, Felix Guatari, etc.), colaborei ainda no Groupe Information Prison e pertenci ao grupo anarquista Marge.
Numa reflexão sobre a forma como estas vivencias marcaram a minha vida pessoal e profissional penso nas opções teóricas e metodológicas sistémicas e construcionistas, procurando situar os problemas nos seus contextos de ocorrência numa compreensão não centrada nos sintomas ou patologias, mas no indivíduo que tem uma história, um mundo relacional, cultural e social, pretendendo dar aos sujeitos um papel protagonista no processo de transformação.
Maio de 68 vai marcar profundamente a minha trajectória política impregnando-a de ideias libertárias, da consciência de que a revolução se faz no quotidiano, em toda a sua complexidade, numa construção com as pessoas, com processos emancipatórios e solidários.
Tenho vivido a política agregando sinergias de amizades e descobertas na intervenção cívica e política numa itine-rância por movimentos e lutas mais ligada a grupos, a movimentos e projectos sociais do que a actividades partidárias.
Claro que se espera que critique o efémero, o folclore, a balda..., mas confesso que o folclore que me chateia não foi o vivido em Maio de 68, antes o que enche as comemorações desta data.
Texto publicado na edição especial dedicada ao Maio de 1968 do "Objectivo Socialismo".








