Em Fevereiro de 1969, os estudantes de Coimbra mobilizavam-se como nunca antes para eleger quem queriam ver à frente dos destinos da AAC, ampliando assim uma luta por eleições livres e contra as comissões administrativas que, desde 65, o governo de Salazar impunha à Associação Académica. E deram uma estrondosa vitória à lista que lhes era proposta pelo Conselho de Repúblicas e se apresentava a escrutínio sob o lema “Por uma Universidade Nova”.
Por este tempo, já em França a praia refluía para debaixo dos “pavés”, as paredes começavam a ficar silenciosas, a festa dava lugar a outra coisa, os operários voltavam às fábricas com os acordos de Grenelle, a “crise de civilização” de que falava o primeiro-ministro parecia submersa na manif de apoio a De Gaulle e nas eleições subsequentes. E em Agosto, Praga fora invadida pelas tropas do Pacto de Varsóvia, muitos tanques asfixiando a “Primavera” que, desde Janeiro, reivindicava para o povo checoslovaco o direito de escolher os seus caminhos. Haviam sido dois momentos de profunda subversão, neste ano de 68 em que numerosas revoltas estudantis varreram o mundo, do México, do Brasil e dos EUA à Itália, à França, à Alemanha, todas diversas e todas passíveis de relacionamento entre si.
Em Paris, o movimento estudantil rapidamente passou da luta contra uma universidade velha, classista, autoritária à contestação do sistema capitalista e da função que a universidade desempenhava dentro desse sistema. A luta estudantil questionava os fundamentos da sociedade, os trabalhadores ampliaram o protesto e ocuparam as fábricas, as greves alastraram a toda a França, as barricadas incendiaram as ruas de Paris.
Também por uma Universidade Nova se movimentavam os estudantes de Coimbra em 69. E isto englobava a luta pela autonomia universitária, a crítica aos conteúdos das cadeiras, à mediocri-dade e aos sistemas de avaliação, a defesa da participação dos estudantes na gestão da Universidade. E era aí, dentro da Universidade, que se questionava a sua função e o seu papel na sociedade. Na definição desta nova estratégia para o movimento estudantil sim, o Maio de 68 teve enorme influência. A tal “herança sem testamento” de que falava René Char.
Ressalvando as distâncias entre a França de 68 e o Portugal de 69, atrasado, cinzento, marcelista, profundamente marcado pela guerra colonial, também aqui a palavra foi libertação (do pensamento, da imaginação, da criatividade); a participação feminina nas lutas, comícios e debates foi (para mim) a característica mais inovadora e extraordinária do movimento; a “imaginação ao poder” convocou e inventou novas formas de intervir; a música, as flores, os balões, a festa e a solidariedade encheram as ruas, os cafés e os jardins da AAC. Apesar do pouco tempo que mediou entre as eleições de Fevereiro e o 17 de Abril, o sucesso da greve aos exames de Junho confirmou a justeza da estratégia que a direcção da Associação propôs aos estudantes e todos juntos puseram em prática. Fecharam a Universidade - o que na expressão feliz do Jorge Strecht era “trágico para o governo e a nação”. Nós todos os que vivemos aqueles dias ganhamos e perdemos e nunca mais fomos os mesmos e sabemos que aquele foi um momento privilegiado das nossas vidas.
E se o Maio de 68 começou em Março, em Nanterre, em luta pela libertação de estudantes presos na sequência de uma manifestação contra a guerra do Vietname, em Setembro de 69 nós participamos em Coimbra no que julgo ter sido a primeira manif contra a guerra colonial. Estávamos na estação de comboios da cidade e despedíamo-nos dos nossos colegas que, depois de suspensos, receberam guia de marcha e partiam para o quartel de Mafra. Dominados por profunda emoção, deixámos que, dentro e fora do comboio, o grito de “Abaixo a guerra colonial!” se soltasse das nossas gargantas e ecoasse pelas ruas da Baixa… Faltavam só quatro anos para que acontecesse o 25 de Abril.
Quando em 2005 os subúrbios parisienses se revoltaram de novo e de novo ergueram barricadas, agora por causa do desemprego, das más condições de vida, da descrença no futuro, muitos se perguntaram se vinha aí “um novo Maio”. E ao ouvir Sarkozy afirmar que “é preciso calar a canaille” e “enterrar o Maio 68”, pensei naquele ministro Hermano Saraiva que em 69, nas vésperas da greve aos exames, veio à televisão, de dedo espetado e cara de mau, ameaçar que “amanhã, a ordem será mantida em Coimbra”. Não foi. Apesar das polícias, dos carros com arame farpado, das coacções várias. Em França, em Portugal, na Itália, um poder ameaçador não assustou os movimentos. Pelo contrário, reforçou a solidariedade, fortaleceu convicções, deu mais vida, e cor, às palavras que saltavam para as ruas.
Texto publicado na edição especial dedicada ao Maio de 1968 do "Objectivo Socialismo".








