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Foi há 40 anos

Recordar 68, em Paris, ou em Praga, não é só saudosismo ou uma romagem nostálgica, mas a necessidade de trazer à memória algumas experiências, positivas ou não, do que foram momentos singulares da segunda metade do século XX.

No seguimento da luta contra a guerra no Vietname, por parte da juventude norte-americana, que fez tremer as estruturas do imperialismo, a sublevação dos estudantes de Nanterre e Paris veio lembrar que era possível a luta revolucionária, mesmo em estados capitalistas desenvolvidos.

A solidariedade que se estabeleceu entre a luta dos estudantes e a convocação da greve geral de 13 de Maio, começando com o fecho das fábricas Renault em Boulogne-Bilancourt, da Citroën, com as greves dos Correios, dos caminhos-de-ferro, dos médicos, etc., fez marchar nas ruas de Paris muitos milha-res de trabalhadores ao lado dos estudantes. Este facto virá a repetir-se, recentemente, nas lutas contra o desemprego jovem e o precariado.

Estes acontecimentos, só por si, de-veriam merecer um cuidado estudo e uma análise, nestes nossos dias em que um individualismo feroz é incentivado por todos os meios e em todos os sectores da sociedade.

Por outro lado, a chamada Primavera de Praga veio demonstrar que também na Europa de Leste as populações estavam dispostas a lutar por uma sociedade mais livre e democrática, socialista, mas não submetida à burocracia estalinista.

A verdade é que o facto da luta de Paris ter sido derrotada nas urnas por um De Gaulle ameaçadoramente populista e demagogo, que não duraria para além do referendo de 1969 que o arredou do poder; e do levantamento em Praga ter sido esmagado pelos tanques do Pacto de Varsóvia, não impediu que as suas repercussões se fizessem sentir por todo o lado. Em Itália, na Alemanha, na Grécia e, mesmo em Portugal, onde se vivia amordaçado por uma ditadura tacanha, mas ainda poderosa, e também no Brasil, onde em plena ditadura militar os estudantes saíram à rua, a exemplo do que acontecera na Europa.

No México, igualmente, estudantes são massacrados em vésperas dos Jogos Olímpicos, em manifestações de rua.

Um exemplo a colher com os diversos acontecimentos de Maio de 68 é de que a energia criativa das massas é enorme, mas que a sua espontaneidade nem sempre é devidamente apreciada pelas direcções partidárias tradicionais e por isso é geralmente menosprezada.

Foi assim que aconteceu em França pelas direcções do PCF e da CGT e igualmente pelos chefes de Moscovo que reprimiram selvaticamente a tentativa do Socialismo de rosto humano que surgia em Praga.

É neste caldo de cultura política que, embora não seja possível dizer que nascem, mas se desenvolvem as correntes políticas à esquerda dos PC de obediência soviética.

Dos trotskistas aos maoístas, passando por libertários, todas as correntes que estavam representadas nos gigantescos plenários da Sorbonne e no “boul miche“ explodiram, a seguir, nas ruas das cidades da Europa e não só.

A influência de Maio 68 é tal e até hoje que o candidato Nicolas Sarkozy teve a necessidade de prometer destruir o que resta do espírito de 68.

 

Texto publicado na edição especial do "Objectivo Socialismo" dedicada ao Maio de 1968.


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Criado em: 2008-05-14 02:58:49
Autor: Ferreira dos Santos