Longe vão os tempos em que se cantava na rua "Unidade, unidade, unidade/ Do trabalho contra o capital". Longe vão até os tempos em que Dolly Parton cantava "Nine to five", o clássico horário, das 9 às 17, dos empregos talvez monótonos, talvez sem perspectivas, mas firmes como uma rocha. Hoje, discutem-se alterações ao Código de Trabalho e já se sabe que não há lugares de pedra e cal, que não há horários rígidos, que se pode ser mandado de um sítio para outro.
E convém não esquecer que os patrões também viram acabar-se os seus tempos de ouro, com a perda de mercados exclusivos, como os das colónias, a concorrência quase desleal das economias emergentes ou a constante chantagem da OPEP.
Parece que a isto se chama "economia de mercado", "mercado aberto", "globalização". É o que está a dar, portanto, aguentemos! Mas, para isso, deverão os patrões aceitar que os seus lucros nunca mais voltarão a ser o que eram e os trabalhadores devem convencer-se de que têm de aceitar sacrifícios se querem ter pão. Creio que é a isto que se chama concertação social.
E que melhor exemplo de concertação social haverá do que o estóico sacrifício de uns 6 mil gerentes ou directores de empresas que aceitam ganhar apenas o salário mínimo (pelo menos é o que declaram ao Fisco, e essa gente, como sabemos, é séria)? Apesar da responsabilidade e da especialização das suas funções, tais abnegados trabalham lado a lado com subordinados em que nem um só ganha menos do que eles. Imagino gerentes e directores, eventualmente senhores doutores, a levarem para casa, no fim do mês, uns míseros 343 euros líquidos (na melhor das hipóteses, 712). Imagino-os de colarinho esfiapado, fato surrado e sapatos cambados, a irem de transporte público para a empresa e a comer uma refeição económica ao balcão. Como é que, depois de semelhante exemplo, haverá trabalhadores, muito menos qualificados, que exigem salário alto, emprego firme, local assegurado?
Felizmente que estas coisas se vão sabendo, mas, até que se esclareçam, o povo que paga os seus impostos tem o direito de exigir que lhe digam se são mesmo verdadeiras as declarações ao Fisco dos 6 mil, ou se não estaremos perante uma escandalosa falta de vergonha na cara. Mas devem ser mesmo verdadeiras, aquilo é tudo gente séria!
Crónica de Sérgio de Andrade publicada no "Jornal de Notícias" de hoje








