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Revolução ou rebeldia?

Uma primeira constatação: afinal os acontecimentos do Maio de 1968 em França tiveram lugar somente seis anos antes do 25 de Abril de 1974 em Portugal. Outra constatação: 1968 é cinco anos antes do início da chamada crise petrolífera de 1973.

Atente-se também no seguinte: as recentes explosões estudantis e nos bairros suburbanos franceses, em que muitos procuraram encontrar analogias com os acontecimentos de 40 anos antes, desenrolaram-se agora perante um cenário bem diferente, desemprego crescente, cortes em medidas sociais, instabilidade política e social…

Os acontecimentos ocorridos durante o ano de 1968 surgem num quadro internacional de contestação à guerra do Vietname, de luta por direitos sociais, de contestação a regras e valores de uma sociedade capitalista e burguesa, como que adormecida desde o final do pesadelo da 2.ª Guerra Mundial. Os movimentos estudantis, populares e sociais na Europa e nos EUA não começaram por razões económicas, mas deram lugar a verdadeiras situações pré-revolucionárias e de dualidade do poder. Particularmente em França, na então República Federal da Alemanha e na antiga Checoslóvaquia.

Os acontecimentos internacionais ocorridos durante o ano de 1968 serviram também para abalar e repensar muitas certezas de cartilha de algumas correntes esquerdistas que pensam que para a ocorrência de um processo pré-revolucionário ou se verificam, tipo régua e esquadro, as premissas enunciadas por gloriosos líderes ou então não passará tudo de uma “anarqueirada”…

No pós- Maio de 1968 terá faltado uma profunda reflexão, séria, fria e independente, entre e em todas as esquerdas e correntes libertárias, para que as consequências da futura queda do Mundo de Berlim não continuasse a ter, ainda nos nossos dias, um efeito de bomba atómica sobre toda a esquerda.

No Maio de 1968, em França, o Partido Comunista tinha votações na casa dos 20-25%, as correntes à esquerda do PS e do PC, estavam pulverizadas em pequenos grupos que se combatiam sectária e ruidosamente. Hoje, em 2008, os PCs estão em crise, as tais correntes à esquerda do PS e do PC não conseguiram aumentar significativamente a sua representação eleitoral e penetração social, e, os PSs iniciaram um processo rumo à total inserção no modelo neo-liberal.

Continua a faltar capacidade de reflexão à esquerda, por forma a aumentar a eficácia política de uma proposta de mudança que tem de ser anti-capitalista, anti-totalitária, libertária e renovadamente socialista.

No Maio de 1968 em França, a crise social antecedeu a crise política. A contestação estudantil antecedeu a contestação operária. Uma e outra crise, uma e outra contestação acabaram por convergir. Dessa convergência o poder político gaullista foi contestado. Foi, mas… não foi derrotado, até sobreviveu! O que faltou?

Não chegou o espontaneísmo dos movimentos sociais. Como veio a acontecer depois durante a Revolução de Abril. Como aconteceu também durante os chamados movimentos anti-globalização dos anos 90.

Para a criação de um movimento social de massas, é fundamental perceber o espontaneísmo. É vital perceber que o espontaneísmo corresponde a um nível mais no processo de amadurecimento da acção do movimento de massas, enquanto sujeito colectivo. Mas, no momento decisivo, isto é, quando se coloca a questão do poder é vital que esse espontaneísmo possa produzir uma forma de organização capaz de intervir decisivamente. Sem vanguardismos, sem líderes iluminados, mas como consequência do processo de convergência das organizações de base que o espontaneísmo de massas soube criar.

Esta é uma questão que ainda hoje precisa de ser debatida com produção de respostas concretas e consensuais entre as esquerdas que se propõem mudar a sociedade.

No Maio de 1968, as correntes de uma esquerda socialista, libertária, radical e anti-capitalista acabaram de viver o mesmo drama que já tinham vivido durante a Revolução espanhola e, depois, viveriam na Revolução de Abril em Portugal: a hegemonia dos partidos do reformismo social-democrata e do totalitarismo estalinista, com a ajuda do sectarismo esquerdista, minou qualquer hipótese de intervenção social e política de novo tipo!

Em 2008, a excelente experiência do Bloco de Esquerda em Portugal, continua a ser um bom exemplo à esquerda, de capacidade de convergência entre diferentes correntes, sem sectarismos e, o que é importante, com forte afirmação de um projecto de mudança socialista! Pena é que não seja um exemplo repetido, também com êxito, no plano internacional. Porque esta experiência do Bloco de Esquerda representa uma lição por parte de quem percebeu o que se passou e falhou em Maio de 1968 e depois disso!

 

Texto publicado na edição especial do "Objectivo Socialismo" dedicada ao Maio de 1968.

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Criado em: 2008-05-14 03:04:28
Autor: João Pedro Freire
Foi há 40 anos

Recordar 68, em Paris, ou em Praga, não é só saudosismo ou uma romagem nostálgica, mas a necessidade de trazer à memória algumas experiências, positivas ou não, do que foram momentos singulares da segunda metade do século XX.

No seguimento da luta contra a guerra no Vietname, por parte da juventude norte-americana, que fez tremer as estruturas do imperialismo, a sublevação dos estudantes de Nanterre e Paris veio lembrar que era possível a luta revolucionária, mesmo em estados capitalistas desenvolvidos.

A solidariedade que se estabeleceu entre a luta dos estudantes e a convocação da greve geral de 13 de Maio, começando com o fecho das fábricas Renault em Boulogne-Bilancourt, da Citroën, com as greves dos Correios, dos caminhos-de-ferro, dos médicos, etc., fez marchar nas ruas de Paris muitos milha-res de trabalhadores ao lado dos estudantes. Este facto virá a repetir-se, recentemente, nas lutas contra o desemprego jovem e o precariado.

Estes acontecimentos, só por si, de-veriam merecer um cuidado estudo e uma análise, nestes nossos dias em que um individualismo feroz é incentivado por todos os meios e em todos os sectores da sociedade.

Por outro lado, a chamada Primavera de Praga veio demonstrar que também na Europa de Leste as populações estavam dispostas a lutar por uma sociedade mais livre e democrática, socialista, mas não submetida à burocracia estalinista.

A verdade é que o facto da luta de Paris ter sido derrotada nas urnas por um De Gaulle ameaçadoramente populista e demagogo, que não duraria para além do referendo de 1969 que o arredou do poder; e do levantamento em Praga ter sido esmagado pelos tanques do Pacto de Varsóvia, não impediu que as suas repercussões se fizessem sentir por todo o lado. Em Itália, na Alemanha, na Grécia e, mesmo em Portugal, onde se vivia amordaçado por uma ditadura tacanha, mas ainda poderosa, e também no Brasil, onde em plena ditadura militar os estudantes saíram à rua, a exemplo do que acontecera na Europa.

No México, igualmente, estudantes são massacrados em vésperas dos Jogos Olímpicos, em manifestações de rua.

Um exemplo a colher com os diversos acontecimentos de Maio de 68 é de que a energia criativa das massas é enorme, mas que a sua espontaneidade nem sempre é devidamente apreciada pelas direcções partidárias tradicionais e por isso é geralmente menosprezada.

Foi assim que aconteceu em França pelas direcções do PCF e da CGT e igualmente pelos chefes de Moscovo que reprimiram selvaticamente a tentativa do Socialismo de rosto humano que surgia em Praga.

É neste caldo de cultura política que, embora não seja possível dizer que nascem, mas se desenvolvem as correntes políticas à esquerda dos PC de obediência soviética.

Dos trotskistas aos maoístas, passando por libertários, todas as correntes que estavam representadas nos gigantescos plenários da Sorbonne e no “boul miche“ explodiram, a seguir, nas ruas das cidades da Europa e não só.

A influência de Maio 68 é tal e até hoje que o candidato Nicolas Sarkozy teve a necessidade de prometer destruir o que resta do espírito de 68.

 

Texto publicado na edição especial do "Objectivo Socialismo" dedicada ao Maio de 1968.


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Criado em: 2008-05-14 02:58:49
Autor: Ferreira dos Santos
Paris, 14 de Maio de 1968

Os trabalhadores da Sub-Aviation, uma fábrica com dois mil operários em Nantes, entram em greve com ocupação das instalações. Em Paris, sucedem-se as manifestaões.Na imagem, líderes estudantis estão sempre na primeira fila (Jacques Sauvageot é o quinto da esquerda para a direita, e Alain Geismar o sexto) (Foto: Gérard-Aimé)

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Criado em: 2008-05-14 01:10:22
O bom exemplo dos 6 mil

Longe vão os tempos em que se cantava na rua "Unidade, unidade, unidade/ Do trabalho contra o capital". Longe vão até os tempos em que Dolly Parton cantava "Nine to five", o clássico horário, das 9 às 17, dos empregos talvez monótonos, talvez sem perspectivas, mas firmes como uma rocha. Hoje, discutem-se alterações ao Código de Trabalho e já se sabe que não há lugares de pedra e cal, que não há horários rígidos, que se pode ser mandado de um sítio para outro.

E convém não esquecer que os patrões também viram acabar-se os seus tempos de ouro, com a perda de mercados exclusivos, como os das colónias, a concorrência quase desleal das economias emergentes ou a constante chantagem da OPEP.

Parece que a isto se chama "economia de mercado", "mercado aberto", "globalização". É o que está a dar, portanto, aguentemos! Mas, para isso, deverão os patrões aceitar que os seus lucros nunca mais voltarão a ser o que eram e os trabalhadores devem convencer-se de que têm de aceitar sacrifícios se querem ter pão. Creio que é a isto que se chama concertação social.

E que melhor exemplo de concertação social haverá do que o estóico sacrifício de uns 6 mil gerentes ou directores de empresas que aceitam ganhar apenas o salário mínimo (pelo menos é o que declaram ao Fisco, e essa gente, como sabemos, é séria)? Apesar da responsabilidade e da especialização das suas funções, tais abnegados trabalham lado a lado com subordinados em que nem um só ganha menos do que eles. Imagino gerentes e directores, eventualmente senhores doutores, a levarem para casa, no fim do mês, uns míseros 343 euros líquidos (na melhor das hipóteses, 712). Imagino-os de colarinho esfiapado, fato surrado e sapatos cambados, a irem de transporte público para a empresa e a comer uma refeição económica ao balcão. Como é que, depois de semelhante exemplo, haverá trabalhadores, muito menos qualificados, que exigem salário alto, emprego firme, local assegurado?

Felizmente que estas coisas se vão sabendo, mas, até que se esclareçam, o povo que paga os seus impostos tem o direito de exigir que lhe digam se são mesmo verdadeiras as declarações ao Fisco dos 6 mil, ou se não estaremos perante uma escandalosa falta de vergonha na cara. Mas devem ser mesmo verdadeiras, aquilo é tudo gente séria!

Crónica de Sérgio de Andrade publicada no "Jornal de Notícias" de hoje

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Criado em: 2008-05-13 16:55:27
Objectivo Socialismo - edição especial

Está em distribuição a edição especial de Maio de 2008 do jornal "Objectivo Socialismo", da corrente de opinião Esquerda Nova do Bloco de Esquerda, que assinala os 40 anos do Maio de 1968.

Os interessados em obter um exemplar, caso não o tenham recebido, podem solicitá-lo no endereço electrónico habitual: esquerdanova@esquerdanova.net.

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Criado em: 2008-05-12 02:55:03
A revolta de quem não se quer calar

Mural em Lisboa, dos jovens do Bloco de Esquerda, que assinala os 40 anos do Maio de 68.

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Criado em: 2008-05-11 21:32:26
40 ANOS MAIO 68

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Criado em: 2008-05-10 00:46:31
Maio 68 / Maio 2008

Quarenta anos depois, a mesma falta de espírito democrático e de abertura que levou o PCF a insultar os estudantes (e os trabalhadores) franceses que tiveram a coragem de se revoltar contra o cinzentismo Gaullista, leva agora o PCP a tentar menosprezar a inicitaiva do Bloco de Esquerda que se propõe lembrar os acontecimentos, não só de Paris, mas também de Praga, na Primavera de 1968.

O artigo publicado no "Avante", assinado por Henrique Custódio, é lamentável e demonstra o anquilosamento a que algumas entidades conseguem chegar.

 

 

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Criado em: 2008-05-09 20:40:46
Autor: Ferreira dos Santos