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O "SENADOR" MÁRIO SOARES FALOU...

Ontem Mário Soares escreveu no Diário de Notícias para opinar sobre "Pobreza e Desigualdade". Como sempre, isto é, sempre que escreve sobre questões que possam tocar no partido do qual foi fundador, tem direito a mil e uma citações na nossa imprensa e entre algumas figuras que dão pelo nome de "comentadores"...

Mário Soares que é conhecido como um "senador da nossa democracia", arrisca-se, com o que escreve, a ter o mesmo papel que qualquer senador tem, onde existem: falam, falam, falam mas não fazem nem resolvem nada!

Da leitura do texto de Mário Soares fica-se com uma grande dúvida: o que incomoda o ex-secretário geral do PS é a pobreza e as políticas do SEU governo ou antes as consequências ELEITORAIS que essas políticas podem ter para o SEU PS que pode vir a perder social e eleitoralmente para o BE e o PCP?

Mário Soares é um democrata que se respeita, é um social-democrata que também se respeita. Mas não é mais democrata nem mais social-democrata que Oskar Lafontaine na Alemanha. E damos este exemplo, porquê? Porque o Sr. Lafontaine também foi presidente de um "partido-irmão" do PS português e, não obstante, o seu percurso e a sua idade, soube agir, em vez, de só falar ou escrever. Lafontaine disse BASTA ao liberalismo das direcções do SPD, fundou o seu próprio movimento e depois soube juntar-se a outras correntes políticas, sindicais e sociais que querem um socialismo para o século XXI, a alternativa ao neo-liberalismo, participando na criação do novo "Die Linke", o Partido da Esquerda, na Alemanha. Este partido é, neste momento, o 3.º maior da Alemanha, atrás dos democratas-cristãos e do SPD...

Por cá, Mário Soares continua a falar e a escrever...

Convém também não esquecer que o ex-Presidente, foi o candidato OFICIAL da direcção do PS que também é governo, nas últimas eleições presidenciais, e, que têm sido os responsáveis por:

  • liberalizar selvaticamente a sociedade e a economia portuguesas, através de políticas de direita que a direita parecia ter vergonha de assumir.
  • amarfanhar o PS tornando-o uma espécie de partido de autómatos, onde quem não aceita (e felizmente existe muita gente!) essa condição é... marginalizado.
  • tornar o PS em MAIS UM partido igual a qualquer um que esteja perfilhado pelos parâmetros da chamada economia de mercado e pelo neo-liberalismo.

Mário Soares em vez de CITAR e CITAR estudos e estatísticas, e, depois apelar a quem já está incapaz de mudar o que quer que seja, deveria olhar para o espaço europeu e analisar o que é que fazem, hoje em dia, os partidos da Internacional Socialista... poderia resumir-se no seguinte, dizem uma coisa na oposição e fazem outra no governo, como, aliás, também já fez Soares!

Como qualquer intervenção de qualquer "senador" da praça portuguesa, como por exemplo, aquando das intervenções de Cavaco Silva, também Mário Soares conseguiu pôr o governo, que APARENTEMENTE criticou, a estar de acordo com o que disse... lá está, é esta a capacidade de intervenção e de mudança dos "senadores"... não conseguem nada, a não ser serem falados nas conversas dos salões de chá!

As desigualdades, a pobreza, as marginalizações, o dito "Estado de Direito" só para alguns, a inexistência crescente de direitos sociais e de cidadania, exigem INTERVENÇÃO... muito mais intervenção do que palavreado! E um dos caminhos para essa intervenção é lutar-se pela concretização de uma alternativa SOCIALISTA que provoque maioria social por políticas socialistas e democráticas contra a desorganização e o desastre neo-liberais. E essa maioria social tem a ver com as pessoas concretas, como os professores, como todas e todos aqueles que lutam pelo direito à saúde, como todas e todos os que estam fartos de ter uma vida precária, como todas e todos os que no interior prescindem do tractor para voltarem a usar o burro ou o boi com a charrua,..., e também com os que política e socialmente continuam a acreditar que a alternativa ao liberalismo e a qualquer totalitarismo está no socialismo, estejam, no PS, no PCP, no Bloco de Esquerda ou sem partido!

 

Via Tribuna Socialista


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Criado em: 2008-05-29 21:35:41
Autor: João Pedro Freire
Jornada contra a precariedade e o Código do Trabalho

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Criado em: 2008-05-28 21:29:00
Paris, 24 de Maio de 1968

"Somos todos judeus alemãs": cerca de 30 mil jovens manifestam a sua solidariedade com Cohn-Bendit. É a vez de mais um aniversário da Comuna de Paris e os dirigentes do movimento insistem numa outra palavra de ordem: "O poder está na rua". Às 20 horas, o general De Gaulle fala ao país, propondo a realização de um referendo. Os manifestantes reagem à intervenção, agitando lenços brancos e gritando "Adeus De Gaulle".
Começa a segunda noite de barricadas em Paris, primeiro na Rue de Lyon, depois no Quartier Latin. Pelo caminho, os manifestantes ocupam a Bolsa e deitam fogo às instalações. São atacados alguns comissariados de Polícia. Pierre Mendès France, antigo primeiro-ministro e símbolo das esquerdas, desloca-se à Sorbonne, ocupada pelos estudantes, afirmando que pretende ser testemunha dos combates. Os confrontos com a Polícia vão durar toda a noite. De madrugada, o ministro do Interior classifica os rebeldes de "escumalha". Confrontos também em Lyon, de que resultam um morto e 500 feridos (Foto de Gérard-Aimé)

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Criado em: 2008-05-23 23:55:35
Vem quem quiser, fala quem tiver coisas para dizer

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Criado em: 2008-05-23 03:21:31
Autor: Esquerda Nova
O cinema e o Maio de 68

Há quem defenda que o Maio 68 começou em Fevereiro. Porquê? Três meses antes, a 14 de Fevereiro, milhares de pessoas dirigiram-se ao Palácio de Chaillot – sede da Cinématheque Française – para protestar contra a demissão do seu director, Henri Langlois. Nessa multidão encontravam-se, entre outros, Jean luc Godard, François Truffaut, Catherine Deneuve e Jeanne Moreau. A manifestação foi reprimida pela Polícia. O autor desta demissão, por alegadas deficiências financeiras – argumento velhíssimo, como se vê –, foi o então ministro da Cultura André Malraux, esse mesmo.

“Mas quem é esse Henri Langlois?”, perguntou De Gaulle ao seu ministro, após todo este rebuliço.

Henri Langlois era o director da cinemateca francesa desde o seu início, a 9 de Setembro de 1936. É esta cinemateca que vai ser a “mãe” de todas as cinematecas do Mundo. O seu fim era “conservar e difundir os filmes de reportório”. A associação de Langlois era originária de um “Groupement des intérets français en Espagne”, cujo fim era “recensear os interesses franceses em Espanha, assim como a sua protecção e eventual salvaguarda”. Os acontecimentos em Espanha, a guerra civil para ser mais correcto, só fizeram nascer vocações revolucionárias.

A cinemateca não surgiu de uma colecção previamente constituída, mesmo privada, mas de um cineclube. Langlois era igualmente um coleccionador de tudo o que dizia respeito ao cinema.

Provavelmente era o primeiro e o maior coleccionador de todos os directores de cinematecas ou de arquivos de filmes. E o que distinguiu durante muitos anos a cinemateca francesa das outras foi a estreita dependência entre uma colecção e a sua programação.

Para Langlois, todo o documento, todo o filme conservado, deve ser mostrado. Mostrar um documento e projectar um filme foram para Langlois actos públicos.

É a criação da cinemateca que decreta por um golpe jurídico – uma declaração de associação e a sua publicação no Journal Officiel, de 8 de Junho de 1936 – que os filmes são obras de arte, de “reportório”, e que o cinema é uma coisa preciosa que se deve conservar.

Foi a favor deste homem que se insurgiu toda aquela gente, naquele final de tarde chuvoso. Os protestos tiveram o apoio do jornal Combat, como não podia deixar de ser, da revista Cahiers du Cinéma, que receberam apoios de diversas personalidades ligadas ao cinema, além dos anteriormente nomeados: Abel Gance, Alain Resnais, Joseph Losey, Roberto Rosselini, Nicholas Ray, Erich von Stroheim, Charles Chaplin, Luchino Visconti, etc., etc..

Os protestos continuaram durante meses... o Festival de Cannes foi suspenso... há algumas fotografias célebres de Truffaut a trepar pelas cortinas.

Ah!... Langlois foi reintegrado.

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Criado em: 2008-05-16 00:41:35
Autor: Paulo Teixeira de Sousa
Paris, 16 de Maio de 1968

Os operários da fábrica Renault em Cléon entram em greve. De madrugada tinham-se barricado nas instalações, sequestrando o director. A média das idades dos 4500 trabalhadores é de 29 anos. O seu slogan: "Podemos negociar com o patronato após a greve, nunca antes". Os metalúrgicos de Billancourt, símbolo da classe operária, seguem o exemplo. Nesse dia, a rádio fala em 70 mil trabalhadores em greve (Foto: Gérard-Aimé)


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Criado em: 2008-05-16 00:31:06
Testemunho de uma portuguesa em Paris

Não vou falar de Maio de 68 com grandes análises sociopolíticas embora as considere interessantes e necessárias numas comemorações de 40 anos de um acontecimento tão marcante. Vou reflectir em termos pessoais, num testemunho vivencial, subjectivo.

Cheguei a Paris nos finais de 1967 e não me podia ter acontecido melhor forma de integração neste país. Em Março os estudantes ocupam a Universidade de Nanterre e cria-se o Movimento de 22 de Março liderado por Daniel Cohn-Bendit.

As primeiras reivindicações eram contra o ensino universitário, contra “a educação burguesa” e os enlatados de conteúdos disciplinares – “Professores, a cultura está em migalhas” –, contra o autoritarismo, a tecnocracia, a burocracia, a repressão sexual. A primeira contestação activa tinha ocorrido meses antes, contra a separação de sexos nas residências universitárias.
Nos primeiros dias de Maio o Governo manda fechar as Universidades de Nanterre e de seguida a Sorbonne.

As manifestações enchem em permanência o Quartier Latin. A repressão policial sobre os manifestantes causou prisões e muitas dezenas de feridos. Uma barricada construída deu azo a muitas outras, os paralelepípedos arrancados mudaram os confrontos e as relações de força. Todos os dias se evoluía.... Também a polícia se aperfeiçoava: passaram da protecção com escudos em metal para um material resistente mas transparente que permitia ver melhor deonde vinham os paralelepípedos.

A 13 de Maio uma manifestação juntava, só em Paris, cerca de um milhão de estudantes, professores, trabalhadores. “A nossa Revolução é maior que nós”.

Paris fervilhava e encantava… Um outro viver, a cidade construía-se com novos espaços de convivialidade. “As paredes têm ouvidos, os teus ouvidos têm paredes”; “Um só fim de semana não-re-volucionário é infinitamente mais sangrento que um mês de revolução permanente”. Contra as teias de aranha, o marasmo da vidinha burguesa - “A imaginação ao poder” - procura novas concepções de vida - “O aborrecimento é contra-revolucionário”; “Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo”.

Falar da Sorbonne ocupada no dia 13 com uma bandeira vermelha e outra preta desfraldadas no seu topo é contar como a aventura se descobria no dia a dia e como a experiência de luta e de autogestão ganhava forma. Organizar os comités de ocupação, o comité de imprensa, a creche, as limpezas, as dormidas, o posto médico que contava com estudantes de Medicina, um bar onde se pagava o que se podia, um pátio onde se cantava, se tocava, se teatralizava, se descobriam expressões artísticas alternativas, era como se o mundo nos desse todas as possibilidades.

O que para nós significava esta Sorbonne ocupada estava bem patente na frase que um dia surgiu à entrada com grandes letras escrita: “Já passaram 10 dias de felicidade”.

É impossível esquecer o que eram anfiteatros onde os debates se sucediam dia e noite, onde o megafone circulava pelas mãos que o desejassem e debater ideias e estratégias dava tanto prazer. “On n’est pas lá pour s’emmerder”. E se no grande anfiteatro tinham lugar as Assembleias Gerais e se encontravam personagens de topo, nos pequenos debatiam-se temáticas como o feminismo, aborto, ecologia e migração, entre muitos.

Pessoalmente, tive uma ocupação facilitada dormindo no simpático espaço do Departamento dos Estudos Portugueses e Brasileiros.

Tecia-se socialmente uma rede de lutas que se estendia com nós espalhados por todo o país, com malhas fortes e malhas fracas, com buracos, com enriçados, com originais feitios. Uma rede cujos limites eram sempre provisórios, pois novas malhas podiam ser tecidas. Estávamos cons-cientes que eram os buracos da rede que permitiam a emergência de novas criatividades, potencialidades, problemáticas.

Todos os dias novas injustiças eram denunciadas, novas temáticas exploradas, sem verdades absolutas, numa complexa dinâmica onde tudo tinha que ser permitido e aceite pois “É proibido proibir”. Novos grupos (“groupuscules”) tomavam corpo. “Sejam realistas, exijam o impossível!”

Se o que se estava a passar em Paris se inscrevia em movimentos reivindicativos mundiais, por sua vez, o que aqui se passava dava sinergia a novas transversalidades, exigindo-nos uma compreensão holística das dinâmicas interactivas.

A greve geral agarra a França e abrange 10 milhões de trabalhadores e muitas fábricas e empresas ocupadas.

O poder estava na rua e tinha abalado o Governo. De Gaulle estava “refugiado” na Alemanha e, verdade ou não, dizia-se que muitos documentos estavam a ser queimados com medo da Revolução.

Surpreendi-me ao perceber como as ocupações nas fábricas se faziam frequentemente contra os sindicatos - “Trabalhador: tu tens 25 anos, mas o teu sindicato é do outro século”; surpreendi-me ao ver o jornal L’Humanité (orgão do Partido Comunista Francês) tratar os estudantes de “provocadores”, “aventureiros”, “agitadores”; surpreendi-me no dia 13 de Maio, o dia da grande manifestação, por ser dito que “a única lite-ratura permitida será a das organizações responsáveis pela manifestação”, tentando controlar o incontrolável; surpreendi-me...

Há acontecimentos sociais e políticos que não encontraram palavras e discursos que lhe dessem corpo mas, em Maio de 68, uma criatividade em espiral entrosava os acontecimentos e as frases. Maio de 68 está bem representado nas suas frases emblemáticas. A ousadia das ideias consubstanciava-se numa narrativa e grafismo nas pichagens murais, nos cartazes, nas faixas suspensas nos prédios e nas árvores.

Toda a gente podia escrever, re-escrever ou comentar o escrito. “Todo poder aos conselhos operários” (um enraivecido); “Todo poder aos conselhos enraivecidos” (um operário).
Fartos de slogans estafados como “A imaginação ao poder”, um discurso espontâneo, libertário, irreverente, provocador, subvertia o estabelecido ao “inventar a utopia” com algumas frases extraordinariamente belas. A narrativa criava realidades.

Como pequena nota de como tudo era possível, um dia fiquei espantada quando vi na Faculdade de Censier escrito: “Milice ando à tua procura em Paris e ainda não te encontrei. Teresa”.

Todavia, as forças conservadoras também se manifestaram sob bandeiras tricolores. Em Junho as eleições traziam a vitória da UDR. Mas nada foi como dantes.

Em 1968-69 inscrevo-me na recém-formada Université de Vincennes (Paris VIII) no curso de Psicologia, tendo tido marcantes professores como Tomkiewicz, Michel Lobrot, Georges Lapassade, Ardoino, e tendo podido escutar Foucault, Lacan, Derrida.

Como activista estive, sobretudo, li-gada a grupos de crítica às instituições e à violência institucional. Lutei em movimentos antipsiquiátricos, nomeadamente no Groupe Information Asile e, posteriormente, no Réseau Alternative à la Psyquiatrie (David Cooper, Franco e Franca Basaglia, Robert Castel, Mony Elkaim, Felix Guatari, etc.), colaborei ainda no Groupe Information Prison e pertenci ao grupo anarquista Marge.

Numa reflexão sobre a forma como estas vivencias marcaram a minha vida pessoal e profissional penso nas opções teóricas e metodológicas sistémicas e construcionistas, procurando situar os problemas nos seus contextos de ocorrência numa compreensão não centrada nos sintomas ou patologias, mas no indivíduo que tem uma história, um mundo relacional, cultural e social, pretendendo dar aos sujeitos um papel protagonista no processo de transformação.

Maio de 68 vai marcar profundamente a minha trajectória política impregnando-a de ideias libertárias, da consciência de que a revolução se faz no quotidiano, em toda a sua complexidade, numa construção com as pessoas, com processos emancipatórios e solidários.

Tenho vivido a política agregando sinergias de amizades e descobertas na intervenção cívica e política numa itine-rância por movimentos e lutas mais ligada a grupos, a movimentos e projectos sociais do que a actividades partidárias.

Claro que se espera que critique o efémero, o folclore, a balda..., mas confesso que o folclore que me chateia não foi o vivido em Maio de 68, antes o que enche as comemorações desta data.

Texto publicado na edição especial dedicada ao Maio de 1968 do "Objectivo Socialismo".

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Criado em: 2008-05-15 01:48:25
Autor: Milice Ribeiro dos Santos
Quando a força das palavras saltou para as ruas...

Em Fevereiro de 1969, os estudantes de Coimbra mobilizavam-se como nunca antes para eleger quem queriam ver à frente dos destinos da AAC, ampliando assim uma luta por eleições livres e contra as comissões administrativas que, desde 65, o governo de Salazar impunha à Associação Académica. E deram uma estrondosa vitória à lista que lhes era proposta pelo Conselho de Repúblicas e se apresentava a escrutínio sob o lema “Por uma Universidade Nova”.

Por este tempo, já em França a praia refluía para debaixo dos “pavés”, as paredes começavam a ficar silenciosas, a festa dava lugar a outra coisa, os operários voltavam às fábricas com os acordos de Grenelle, a “crise de civilização” de que falava o primeiro-ministro parecia submersa na manif de apoio a De Gaulle e nas eleições subsequentes. E em Agosto, Praga fora invadida pelas tropas do Pacto de Varsóvia, muitos tanques asfixiando a “Primavera” que, desde Janeiro, reivindicava para o povo checoslovaco o direito de escolher os seus caminhos. Haviam sido dois momentos de profunda subversão, neste ano de 68 em que numerosas revoltas estudantis varreram o mundo, do México, do Brasil e dos EUA à Itália, à França, à Alemanha, todas diversas e todas passíveis de relacionamento entre si.

Em Paris, o movimento estudantil rapidamente passou da luta contra uma universidade velha, classista, autoritária à contestação do sistema capitalista e da função que a universidade desempenhava dentro desse sistema. A luta estudantil questionava os fundamentos da sociedade, os trabalhadores ampliaram o protesto e ocuparam as fábricas, as greves alastraram a toda a França, as barricadas incendiaram as ruas de Paris.

Também por uma Universidade Nova se movimentavam os estudantes de Coimbra em 69. E isto englobava a luta pela autonomia universitária, a crítica aos conteúdos das cadeiras, à mediocri-dade e aos sistemas de avaliação, a defesa da participação dos estudantes na gestão da Universidade. E era aí, dentro da Universidade, que se questionava a sua função e o seu papel na sociedade. Na definição desta nova estratégia para o movimento estudantil sim, o Maio de 68 teve enorme influência. A tal “herança sem testamento” de que falava René Char.

Ressalvando as distâncias entre a França de 68 e o Portugal de 69, atrasado, cinzento, marcelista, profundamente marcado pela guerra colonial, também aqui a palavra foi libertação (do pensamento, da imaginação, da criatividade); a participação feminina nas lutas, comícios e debates foi (para mim) a característica mais inovadora e extraordinária do movimento; a “imaginação ao poder” convocou e inventou novas formas de intervir; a música, as flores, os balões, a festa e a solidariedade encheram as ruas, os cafés e os jardins da AAC. Apesar do pouco tempo que mediou entre as eleições de Fevereiro e o 17 de Abril, o sucesso da greve aos exames de Junho confirmou a justeza da estratégia que a direcção da Associação propôs aos estudantes e todos juntos puseram em prática. Fecharam a Universidade - o que na expressão feliz do Jorge Strecht era “trágico para o governo e a nação”. Nós todos os que vivemos aqueles dias ganhamos e perdemos e nunca mais fomos os mesmos e sabemos que aquele foi um momento privilegiado das nossas vidas.

E se o Maio de 68 começou em Março, em Nanterre, em luta pela libertação de estudantes presos na sequência de uma manifestação contra a guerra do Vietname, em Setembro de 69 nós participamos em Coimbra no que julgo ter sido a primeira manif contra a guerra colonial. Estávamos na estação de comboios da cidade e despedíamo-nos dos nossos colegas que, depois de suspensos, receberam guia de marcha e partiam para o quartel de Mafra. Dominados por profunda emoção, deixámos que, dentro e fora do comboio, o grito de “Abaixo a guerra colonial!” se soltasse das nossas gargantas e ecoasse pelas ruas da Baixa… Faltavam só quatro anos para que acontecesse o 25 de Abril.

Quando em 2005 os subúrbios parisienses se revoltaram de novo e de novo ergueram barricadas, agora por causa do desemprego, das más condições de vida, da descrença no futuro, muitos se perguntaram se vinha aí “um novo Maio”. E ao ouvir Sarkozy afirmar que “é preciso calar a canaille” e “enterrar o Maio 68”, pensei naquele ministro Hermano Saraiva que em 69, nas vésperas da greve aos exames, veio à televisão, de dedo espetado e cara de mau, ameaçar que “amanhã, a ordem será mantida em Coimbra”. Não foi. Apesar das polícias, dos carros com arame farpado, das coacções várias. Em França, em Portugal, na Itália, um poder ameaçador não assustou os movimentos. Pelo contrário, reforçou a solidariedade, fortaleceu convicções, deu mais vida, e cor, às palavras que saltavam para as ruas.

Texto publicado na edição especial dedicada ao Maio de 1968 do "Objectivo Socialismo".

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Criado em: 2008-05-15 01:44:00
Autor: Mi Felga