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Greve nacional da Administração Pública - entrevista a Carvalho da Silva

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Criado em: 2010-03-03 02:48:49
O que fará um governo de esquerda socialista?

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Criado em: 2010-02-24 20:05:54
Jackpot no Tachomilhões

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Criado em: 2010-02-24 20:04:31
"É impossível sair da crise se não se apoia o emprego"

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Criado em: 2010-02-23 00:43:31
O caminho exemplar de Mandela

“O princípio do fim da indignidade” na África do Sul aconteceu há 20 anos, quando Nelson Mandela foi libertado, afirmou o Arcebispo Desmond Tutu.

A libertação de Mandela foi também o início da libertação dos sul-africanos, que não ficaram indiferentes a um homem que lutou pela liberdade colectiva de um povo e que pagou o preço dessa batalha com 27 anos da sua própria liberdade.

A 11 de Fevereiro de 1990, Mandela, saiu da prisão, pelas mãos de sua esposa Winnie, e deu os primeiros passos em liberdade, depois de quase três décadas, para se juntar a uma fervorosa multidão que o aguardava nas ruas. A partir de então, caminhou sem descanso até conseguir conduzir o país a um regime democrático, que culminou em 1994, quando foi eleito, por sufrágio universal, o primeiro presidente negro da África do Sul. Foi o fim do sistema de apartheid, que os ideólogos baptizaram cinicamente como "regime de desenvolvimento independente".

A 11 de Fevereiro de 1990, Mandela provocou o reacender de um espírito colectivo no país.

Nesse dia, a imagem de Mandela apareceu em directo pela primeira vez no mundo inteiro. A sua imagem sorridente emocionou cidadãos de todos os países, muitos dos quais se inspiravam no seu exemplo para lutar pelas liberdades, contra a injustiça, contra as ditaduras, contra o racismo. Aquela imagem reforçava em muitos a convicção de que lutar vale a pena. Quando havia sido preso ainda não existia televisão, e durante mais de um quarto de século, para além de preso, Mandela tinha sido “interdito” - não era possível citá-lo nem mostrar as suas fotografias. Tentou-se apagar a imagem de Mandela da visão colectiva, mas não se conseguiu fazer desaparecer o homem das mentes de todos aqueles que o viam como um herói e como um símbolo da resistência.

Mandela sai da prisão com um sorriso nos lábios, de serenidade, mas não de apaziguamento pois a sua batalha ainda estava longe do fim. "A nossa luta atingiu um momento decisivo. A nossa marcha para a liberdade é irreversível", afirmou quando chegou à Câmara Municipal da Cidade do Cabo. A partir deste momento, Mandela não descansou enquanto não cumpriu a promessa de realizar as primeiras eleições livres, em 1994.

Aos 91 anos, este homem continua a ser o símbolo de um país em busca de reconciliação, mas onde ainda "há muitíssimo a ser conseguido. Os frutos da democracia devem chegar às mesas de todo o nosso povo", explica Desmond Tutu. Dezesseis anos após as primeiras eleições multirraciais, a África do Sul conquistou a democracia, mas enfrenta agora altos níveis de desemprego e criminalidade e uma desigualdade crescente entre pobres e ricos.

Tutú, que como Mandela foi condecorado com o Nobel da Paz pela sua luta contra o apartheid, disse que o país ainda vive numa democracia débil e que é preciso lutar contra as injustiças que permanecem depois da queda do regime: "Agora, 20 anos e quatro eleições gerais depois, a nossa incipiente democracia está a aprender a andar. Muito já foi conseguido, mas vários compatriotas sobrevivem em condições miseráveis, estudam em escolas mal-equipadas e apertam-se como sardinhas nos transportes públicos".

Aquilo a que Nelson Mandela apelou no seu discurso de posse ainda não aconteceu na práctica, porque, como o próprio afirmou, só existe democracia e igualdade no momento em que “haja justiça, paz, trabalho, pão, água e sal para todos”.

A África do Sul registou a perda de quase um milhão de postos de trabalho nos nove primeiros meses de 2009, contrariamente à promessa de criação de 500 mil empregos em um ano, que o presidente Zuma havia feito no seu discurso de posse em Maio passado.

Hoje, o arcebispo Desmond Tutu pediu aos sul-africanos que recuperem "o espírito do dia em que Nelson Mandela foi libertado. Devemos recuperar o espírito articulado por Steve Biko (um dos lutadores mortos na na luta contra o segregacionismo). Não devemos esquecer o passado".

"Lutei contra a dominação branca e lutei contra a dominação negra. Imaginei o ideal de uma sociedade democrática e livre em que todas as pessoas possam viver juntas, em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver. Mas é um ideal pelo qual estou disposto a morrer se for preciso". (Nelson Mandela)

Helena de Carvalho

Fonte: The Week

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Criado em: 2010-02-13 04:28:39
Onze perguntas frequentes sobre o acordo SWIFT

Estamos a entrar numa nova era. É agora que se estão a construir as bases de dados do futuro, as práticas policiais do futuro, os usos e abusos de autoridade do futuro. E nós, na maior parte dos casos não damos por isso, porque esta é uma intrusão suave, mas determinada, na nossa esfera pessoal. O acordo SWIFT é um desses casos. Aquilo que começou por espionagem — por saque puro e simples dos nossos dados, perpetrado por um estado estrangeiro, sem nada nos dizer — está agora a transformar-se num acordo mal negociado. E pior: negociado nas nossas costas. Queremos dar uma base de dados com as nossas transferências financeiras europeias aos EUA? Queremos dar às democracias ferramentas que fariam as delícias de uma ditadura? E como será no futuro? E quando descobrirem que os vossos dados no facebook ou as vossas conversas no skype também seriam muito interessantes para a polícia?

O Parlamento Europeu tem a grande responsabilidade de travar este acordo SWIFT e voltar à estaca zero, ou a nova era de intrusão e abuso terá começado antes que você dê por isso. Em conjunto com outros deputados no PE, de vários grupos políticos, (a holandesa liberal In’t Veld, o alemão verde Albrecht, e o português “popular” Carlos Coelho) preparei este documento que responde de forma simples às questões mais complicadas sobre o voto de amanhã.

11 Perguntas frequentes sobre o “acordo SWIFT” [Terrorist Finance Tracking Program}]

Estrasburgo, 10.Fev.2010

Pela PLATAFORMA DA PRIVACIDADE:

sophie iN ‘t veld (holanda, liberaIS), Carlos Coelho (Portugal, POPULARES), Rui tavares (portugal, esquerda), jan philipp albrecht (alemanha, verdes)

COM:

claude moraes (RU, socialista), wolfgang kreissl-dorfler (alemanha, socialista), birgite sippel (alemanha, socialista)

11 perguntas frequentes sobre o

Terrorist Finance Tracking Program

[“acordo SWIFT”]

01: O Conselho respeitou o Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE)?

02: O acordo cumpre os critérios estabelecidos pelo Parlamento na sua resolução de 17 de Setembro de 2009?

03: Quantos dados são transferidos?

04: O Acordo protege informação sobre transferências para países terceiros?

05: O Acordo cumpre as normas europeias de protecção de dados e de privacidade?

06: A transferência de dados traz ganhos de segurança à UE?

07: Mas não é o acordo provisório de qualquer maneira? Não vai durar apenas durante um período de nove meses?

08: O que vai acontecer às investigações de terrorismo se o Parlamento não der o seu consentimento ao acordo?

09: O que acontecerá com as relações transatlânticas se o Parlamento não der o seu consentimento ao acordo?

10: O que vai acontecer às relações inter-institucionais da UE se o Parlamento não der o seu consentimento ao acordo?

11: Será que poderíamos ter um acordo melhor se começássemos do zero?


01:

P: O Conselho respeitou o Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE)?

R.
Não.

O Artigo 218 do TFUE na versão de 1 de Dezembro de 2009 determina que “o Parlamento deve ser imediata e plenamente informado em todas as fases do processo”. Antes de mais, o Parlamento não foi informado imediatamente. Como todos sabem, a razão dessa obrigação de informar é um reflexo tanto do princípio democrático fundamental como do dever (consagrado nos Tratados) das instituições cooperarem lealmente.

Tal como os serviços jurídicos do Parlamento confirmaram no seu parecer de 2 de Fevereiro, o Conselho tem actuado “em violação do espírito do Artigo 218(6)(a) do TFUE“ através da apresentação do Acordo ao Parlamento apenas 5 dias úteis antes da sua aplicação provisória a 1 de Fevereiro e sem ter reagido aos reiterados pedidos do Parlamento para fazê-lo desde Dezembro. Os diversos pedidos de debate feitos pelos deputados ao Conselho e à Comissão também não foram respondidos senão até há alguns dias. Além disso, devido a este pedido extremamente atrasado para o consentimento e dado que o Acordo é provisoriamente aplicável, o Conselho privou o Parlamento da possibilidade de exercer adequadamente as suas prerrogativas. Em segundo lugar, o Parlamento também não foi totalmente informado. Há ainda um Anexo confidencial, entretanto disponibilizado, que é crucial para o alcance do Acordo. Também não está claro se e como o Parlamento deverá ser informado se este anexo for modificado no futuro.

02:

P: O acordo cumpre os critérios estabelecidos pelo Parlamento na sua resolução de 17 de Setembro de 2009?

R:
Não.

Os Serviços Jurídicos do Parlamento Europeu, a Autoridade Europeia para a Protecção de Dados e o Grupo do Artigo 29º (Protecção de Dados) explicam nas suas análises que diversos critérios estabelecidos pelo Parlamento não estão a ser cumpridos. Por exemplo, no Acordo não há nenhuma decisão judicial prévia necessária para a transferência de dados; a definição de “terrorismo” é mais abrangente do que a estabelecida pela UE; o Acordo não indica o que são os períodos de retenção e quando os dados serão apagados; e não há nenhum recurso jurídico disponível para cidadãos da UE residentes nos EUA contra a transferência de dados ou para ressarcir danos graves que dela resultem.

03:

P: Quantos dados são transferidos?

R:
Muitos.

Devido à sua organização técnica, a empresa SWIFT não pode limitar as pesquisas de dados para indivíduos específicos. Com efeito, terá que (tal como fez no passado) transferir informação sobre todas as transacções de um determinado país numa determinada data. Há relatos de que o Departamento do Tesouro dos EUA recebeu os dados brutos de 25% de todas as operações da SWIFT. Isso não é proporcional ao objectivo e coloca a União Europeia sob o risco de espionagem económica. Além disso, a Autoridade Europeia para a Protecção de Dados e do Grupo do Artigo 29º exprimem as suas preocupações sobre o Artigo 4 (6), que afirma que “se o Provedor Designado não for capaz de identificar e de produzir os dados específicos para responder ao pedido por razões técnicas, todos os dados potencialmente relevantes devem ser transmitidos em massa“. Isto poderia tornar-se na rotina, e não a excepção.

04:

P: O Acordo protege informação sobre transferências para países terceiros?

R:
Não.

Segundo os Serviços Jurídicos do Parlamento, o Acordo exclui a transferência de dados em bruto para países terceiros ou agências, mas permite a transferência de “pistas“. Ora, “pistas” não é um termo legal estabelecido na UE e presumivelmente significará informações pessoais sobre cidadãos, residentes e seus parceiros de negócios noutros países. A Autoridade Europeia para a Protecção de Dados e o Grupo do Artigo 29º (Protecção de Dados) também expressam a sua preocupação afirmando que “a partilha de dados pessoais com países terceiros não está nem está claramente definida nem está sujeita a garantias adequadas“.

05:

P: O Acordo cumpre as normas europeias de protecção de dados e de privacidade?

R.
Não.

A Autoridade Europeia para a Protecção de Dados e várias outras Autoridades de Protecção de Dados têm repetidamente publicado análises detalhadas mostrando que o Acordo interfere com a vida privada de todos os europeus. Para justificar a violação da privacidade que essas medidas acarretam são precisas provas de que tais medidas são necessárias e proporcionais. Esta evidência está em falta!

06:

P: A transferência de dados traz ganhos de segurança à UE?

R:
Não.

Isto é: os dados financeiros são indubitavelmente úteis na luta contra o terrorismo, mas as informações podem ser obtidas sem o acordo também. Os relatórios confidenciais do juiz Bruguière não evidenciaram que tenha havido um caso de terrorismo que tenha sido impedido ou levado a tribunal com base nos dados financeiros. Os relatórios fazem até afirmações falsas; por exemplo referindo-se ao caso alemão IJU de 2007. A Polícia Criminal Federal alemã (BKA) confirmou publicamente que os dados financeiros não eram de todo necessários neste caso.

07:

P: Mas não é o acordo provisório de qualquer maneira? Não vai durar apenas durante um período de nove meses?

R:
Não exactamente.

Os dados recolhidos durante este período estarão sujeitos a retenção pelas autoridades americanas por, pelo menos, 5 anos. Se extraídos para fins de investigação judicial, esses dados estarão sujeitos ao período de conservação previsto pela lei americana que é de até 90 anos (e tem que ser dito que, devido a razões técnicas, os dados extraídos podem incluir uma vasta quantidade de informações colaterais, por exemplo: os dados de um país durante um determinado mês ou ano). Além disso, este chamado acordo provisório poderá estabelecer práticas institucionais que serão muito difíceis de mudar. Um “acordo” permanente pode não ser capaz de mudar muito do que temos no acordo provisório.

08:

P: O que vai acontecer às investigações de terrorismo se o Parlamento não der o seu consentimento ao acordo?

R:
Não haverá falta de segurança.

A aplicação provisória do Acordo será suspensa após 10 dias e terminará em 30 dias. As autoridades dos EUA poderão ainda solicitar dados para investigações específicas com base no “Mutual Legal Assistance Agreement” e na legislação nacional. Essas leis nacionais transpuseram a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, a Carta dos Direitos Fundamentais e a Convenção 108 do Conselho da Europa e têm por isso o nível adequado de protecção. A luta contra o terrorismo, incluindo a investigação de operações financeiras relacionadas com o terrorismo, não pára se o Parlamento não der o consentimento.

09:

P: O que acontecerá com as relações transatlânticas se o Parlamento não der o seu consentimento ao acordo?

R:
O governo dos EUA poderá negociar um acordo com a UE no futuro com base no respeito mútuo e valores partilhados e no respeito pelos critérios claros enunciados pelo Parlamento há cinco meses atrás. Com efeito, isto reforçará a posição de negociação do Conselho com os Estados Unidos e assegurará uma melhor protecção dos cidadãos da UE.

10:

P: O que vai acontecer às relações inter-institucionais da UE se o Parlamento não der o seu consentimento ao acordo?

R:
O Conselho e a Comissão no futuro também assegurarão que o Parlamento é imediata e plenamente informado sobre negociações internacionais. Isso de facto levará a que as relações inter-institucionais sejam tratadas no respeito pelo disposto no Artigo 218 do TFUE, conferindo plena legitimidade democrática a acordos futuros.

11:

P: Será que poderíamos ter um acordo melhor se começássemos do zero?

R:
Sim.

Durante as audições aos novos comissários, a Srª Cecilia Malmström (Assuntos Internos) e a Srª Viviane Reding (Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania) deram respostas convincentes quando indagadas sobre o que fariam se estivessem a negociar um novo acordo. As comissárias persuadiram a maioria dos deputados de que teriam tanto o conhecimento como a competência para negociar um acordo que obedeça aos princípios da necessidade e da proporcionalidade na luta contra o terrorismo, e que protege a integridade e segurança dos dados financeiros europeus.

 

 

Fonte: ruitavares.net

 

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Criado em: 2010-02-11 02:15:17
Denunciar o medo, sem rodeios

A Esquerda Nova-Corrente de Opinião no Bloco de Esquerda considera que as recentes revelações surgidas na imprensa sobre um alegado envolvimento de José Sócrates em actos de pressão sobre a imprensa e os jornalistas são extremamente graves e exigem uma resposta como a que já foi dada pelo Bloco de Esquerda, que pediu, na Assembleia da Republica, a constituição de uma Comissão de Inquérito que averigue, de uma ponta à outra, o que realmente se passa.

A Esquerda Nova considera que as liberdades democráticas e a democracia são inquestionáveis e bater-se-á contra qualquer atentado à sua existência. Queremos é o aprofundamento dessas liberdades e a qualificação da democracia. Consideramos que isso é parte da nossa luta pelo socialismo!

A Esquerda Nova está contra as pressões políticas às liberdades de imprensa e de opinião. Isso favorece um clima de medo na sociedade portuguesa. Mas para esse clima de medo contribui também a pressão do poder económico… afinal a actual imprensa é detida pelos grandes grupos económicos!

Nas empresas, nomeadamente as grandes empresas privadas, o medo também existe e um dos exercícios de poder pelos grandes grupos económicos é deixar as leis da República à porta das empresas, fazendo valer no seu seio as leis que cada Administração entende impor!

O medo deve ser denunciado. Sem rodeios! Com coragem e com frontalidade! O medo que é fomentado pelo esforço de controleirismo do poder político, mas também pelo autoritarismo fora-de-lei do poder económico e financeiro.

Entretanto, a Esquerda Nova não pode deixar de manifestar a sua oposição a uma manifestação que está convocada, “da esquerda à direita”, como é referido,”pela liberdade de imprensa”, para quinta-feira, junto à Assembleia da República.

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Criado em: 2010-02-10 12:00:21
Autor: Esquerda Nova
Notas soltas sobre genes, com o “Começar de Novo” como pano de fundo

Nascemos com olhos castanhos. Podemos, ao longo da vida, ir usando lentes de contacto com cores diferentes, mas os olhos castanhos estão lá. Fazem parte da nossa herança genética e manter-se-ão castanhos.
Para o bem e para o mal, o mesmo não se passa com as organizações. Quando se usam lentes de várias cores, os genes acabam por dar lugar à evolução ou à incoerência. Algumas vezes à traição. A história tem casos de cada um dos casos.

1.ª nota – O meu filho tem 19 anos. Aderiu ao Bloco de Esquerda mais por tradição do que por convicção... mas a primeira vez que votou votou Bloco de Esquerda, por convicção. E as vezes que se seguiram também...
Na mesa de almoço do refeitório da empresa, no dia após as Europeias de 2009, não consegui esconder a emoção e o espanto. A grande, a esmagadora maioria dos meus colegas de trabalho confiaram no Bloco. Se as eleições fossem aqui tínhamos maioria absoluta, pensei. Entusiasmada... mas também assustada com a responsabilidade.
O meu filho não entendeu como aparecemos ao lado do PSD, do PP e de Jardim. Os meus colegas olhram-me como se os tivesse traído por ouvirem Jardim dizer que era possível um compromisso... com o Bloco!
“Ficaram iguais a eles todos. As estratégias e as tácticas sobrepõem-se aos valores”, é a acusação. O afastamento e a desconfiança, a consequeência.
E eu lembrei-me do “Começar de Novo”: “E é vital para a qualidade da nossa democracia recuperar para a esfera da política quantos dela foram excluídos ou se vêm afastando”. Ou ainda este parágrafo: “Os partidos de massa transformam-se em federações de interesses que ocultam a ideologia por detrás de programas e declarações minimais de circunstância. A militância, que incorporava em si a ideia de participação e cidadania activa, dá lugar a um processo de integral profissionalização das actividades políticas e sociais” .

2.ª nota – Em algumas reuniões, tertúlias ou, simplesmente, conversas, se tem discutido o que é ser Socialista hoje. Somos anticapitalistas ou antineoliberais? O que está nos nossos genes? Uma Esquerda socialista, popular, interventiva, como a que falavam os genes iniciais, é anticapitalista ou antineoliberal?
O Bloco propôs recentemente a criação de uma agência para controlar... as agências de rating. Independente, diz-se na proposta.
O meu filho e os meus colegas de empresa talvez não estejam tão interessados como eu em gastar tempo a discutir ideologia... Mas os olhos eram castanhos. E se usarmos lentes, no caso das organizações, pode ser fatal. Mesmo que os eleitores, os trabalhadores, os militantes não percam muito tempo a discutir ideologias.

Volto ao “Começar de Novo”: “Desta imensa tragédia humana só se pode extrair uma conclusão: a civilização do capitalismo na era da globalização não assegura a realização dos mais elementares Direitos do Homem. Esta constatação é o nosso ponto de partida”.
Ou este parágrafo: ”O Bloco assume as grandes tradições da luta popular no país e aprende com outras experiências e desafios; renova a herança do socialismo e inclui as contribuições convergentes de diversos cidadãos, forças e movimentos que ao longo dos anos se comprometeram com a busca de alternativas ao capitalismo”.
Esperem!, afinal, na génese, o compromisso era criar alternativas ao capitalismo. Afinal, em linguagem de todos os dias, na que fala o meu filho, os meus colegas de empresa, quando se querem criar alternativas a algo é porque somos contra algo... Ah!, e mais um parágrafo do “Começar de Novo”, para voltar a falar na cor dos olhos: “A nossa segunda conclusão é simples: para lá de todas as aparências, a barbárie está a ganhar terreno à civilização. Só a coragem de uma crítica capaz de ir às raízes dos problemas permitirá encontrar respostas radicalmente intransigentes com a injustiça. Menos do que isto não vale a pena”.

O que têm em comum as duas notas, sem ser a discussão ideológica se estamos ou não a mudar a cor dos olhos? Uma total e abslouta falta de informação e de discussão interna. Os eleitores não entenderam as “convergências” com Manuela Ferreira Leite, Paulo Portas e Jardim. Estas não lhes foram explicadas em tempo útil... nem a tal criação da tal comissão de vigilância do capitalismo. Esta não lhes foi explicada nem discutida em tempo nenhum (na Direcção do Bloco, na Mesa Nacional e entre os seus militantes também não, mas isso tornou-se recorrente!).
Sobre isto fica, apenas, mais um parágrafo do “Começar de Novo”:  “Finalmente, e acentuando o impasse do sistema político português, é cada vez mais evidente a sua tendência para viver em circuito fechado, sem conexão com as realidades da vida quotidiana”.
Mudar a cor dos olhos é possível mas pode ser fatal para as organizações. Ficar cego é sempre fatal para as organizações.


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Criado em: 2010-02-10 02:47:11
Autor: Isabel Faria